Ativação Craca #1: Performance para tornar-se Craca

Desde minha mudança para Florianópolis residi em uma casa construída sobre uma grande rocha na lateral do canal da Barra, que liga a Lagoa da Conceição ao Mar. O local no qual a casa se encontrava era o centro de uma vila de pescadores, artesãos de redes, construtores de barcos, humanos intimamente ligados aos fluxos das águas e às artimanhas do mar. Em março de 2020 a irrupção da pandemia de SARS-COV-2 mudou o contexto de produção (e pesquisa) de arte, o que alterou meu processo poético. Performar no espaço público, bem como a experimentação de outros corpos animais para composição de ações performáticas estava em suspensão naquele contexto.

No contexto de isolamento social eu visitei com certa frequência o costão rochoso das Piscinas Naturais na Barra da Lagoa. Foi nas Piscinas Naturais que percebi as incrustações de Cracas – crustáceos sésseis que habitam as zonas entre-marés – pela primeira vez, passando a dar atenção às cracas que se encontravam abaixo do trapiche da casa em que resido, abaixo da canoa que uso todos os dias, nas pedras ao longo do canal, nos cascos dos barcos, entre outros locais. A partir desta inquietação com a multiplicidade das cracas e a partir do contexto pandêmico de restrição de território para performar que eu decidi fazer cerâmica como uma forma de me relacionar com as Cracas da Barra da Lagoa. As cracas são animais sésseis (eles são fixos), de comportamento altamente territorializador. Elas ocupam os espaços se fixando nas superfícies disponíveis e desenvolvendo uma estrutura (corpo-casca-casa duro) em forma de vulcão. Assim, entendi a existência de um corpo mole interno e um corpo duro externo, um fazer cerâmico minucioso de nácar, capaz de proteger o corpo interno da ausência de água nas marés baixas e de servir de abrigo.

Ativação Craca I (2024) é uma ação dentre uma série de performances que resultaram do período de estudos sobre as cracas, realizado em isolamento social. Ela abarca o uso de uma máscara cerâmica projetada para restringir a experiência sensorial habitual no contexto das zonas interditais (zonas entre-marés, o limiar entre a água salgada e as formas terrenas). Os participantes (pessoas que visitam os costões rochosos) são convidados a usar a máscara e permanecer sentados no limite das rochas onde a água do mar se choca. Trata-se de uma experiência visceral, de percepção háptica e espacialização confusa, uma vez que a visão e a audição (sentidos mais utilizados para a localização humana) são distorcidas pelas próteses.

(Há uma video-produção realizada pelo artista, que foi exposta junto a Exposição Vivências em Performance. O vídeo pode ser acessado na seção de videoarte).

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Since I moved to Florianópolis, I have lived in a house built on a large rock on the side of the Barra da Lagoa’s canal, which connects Lagoa da Conceição to the sea. The place where the house was located was the center of a village of fishermen, net artisans, boat builders, humans intimately connected to the flow of water and the tricks of the sea. In March 2020, the outbreak of the SARS-COV-2 pandemic changed the context of art production (and research), which altered my poetic process. Performing in public spaces, as well as experimenting with other animal bodies to compose performance actions, was suspended in that context.

During the context of social isolation, I visited the rocky coast of the Natural Pools in Barra da Lagoa quite often. It was in the Piscinas Naturais that I noticed the encrustations of barnacles – sessile crustaceans that inhabit the intertidal zones – for the first time, and I began to pay attention to the barnacles that were found below the pier of the house where I live, below the canoe that I use every day, on the rocks along the canal, on the hulls of boats, among other places. From this concern with the multiplicity of barnacles and from the pandemic context of restriction of territory for performing that I decided to make ceramics as a way of relating to the barnacles of Barra da Lagoa. Barnacles are sessile animals (they are fixed), with highly territorial behavior. They occupy spaces by attaching themselves to available surfaces and developing a structure (hard body-shell-house) in the shape of a volcano. Thus, I understood the existence of an internal soft body and an external hard body, a meticulous ceramic making of mother-of-pearl (nacre), capable of protecting the internal body from the absence of water at low tides and serving as shelter.

Ativação Craca I (2024) is one of a series of performances that resulted from the period of studies on barnacles, carried out during social isolation. It involves the use of a prosthesis ceramic mask designed to restrict the usual sensory experience in the context of intertidal zones (the threshold between salt water and landforms). Participants (people who visit the rocky coasts) are invited to wear the mask and remain seated on the edge of the rocks where the seawater crashes. It is a visceral experience, of haptic perception and confusing spatialization, since vision and hearing (the senses most used for human location) are distorted by the prosthetics.

(There is a video production made by the artist, which was exhibited together with the Exhibition Vivências em Performance. The video can be accessed in the video art section).