Couraça

Couraça (2017) surge, assim como Brete, em um contexto de Residência Artística na cidade de Silveira Martins (RS). Nesta imersão, pudemos conversar com residentes da cidade, embora a palavra trocada só pudesse nos levar aos limiares da comunicação humana. Havia um conjunto de corpos não-humanos habitantes daquela região. Silveira Martins é uma cidade pequena cujas fontes de renda locais baseiam-se na agricultura e na pecuária de subsistência. Encontramos os não-humanos por todos os lugares, inclusive em operações de trabalho. Os animais constituem a base de operações agrícolas, eles aram a terra, transportam insumos e produção, além de transportar os humanos. Todavia, nosso encontro naquela ocasião com os animais se deu primeiro pela visita a um brete/abatedouro. O açougueiro havia abatido quatro vacas e o que restava era o couro salgado que seria enviado para um curtume. Pedi ao homem se poderia comprar o couro de uma das vacas e decidi costurá-lo em torno do meu corpo para criar uma veste de pele do animal. Naquele período o panorama político nacional era o golpe à democracia que impediu a até então presidenta Dilma Rousseff de seguir seu mandato. “Em meio a fervorosa crise política, a ascensão da direita ao poder, alimentada por um alinhamento servilista a política aos Estados Unidos da América, um golpe à democracia se instaurava. Havia um tempo que tal movimento se insinuava e nós o sentíamos. A dificuldade era aceitar que o que se desenhava em curso ganhava proporção diária alimentada pelas redes de circulação de informação falsa (Fake News) e pela criação de uma falsa crise (econômica, ideológica, e de segurança pública) animada por uma “fantasia conspiratória” (FOSTER, 2021, p. 31) criada pelo discurso da direita branca. O que era preciso fazer como artista, como pensador/pesquisador da arte para atuar contra as forças obscuras que se insinuavam? “E, em todo caso, por que agregar indignação a uma economia midiática que se alimenta da própria?” (FOSTER, 2021, p. 8). Aquilo que parecia tão óbvio para alguns de nós não era para outros. Vimos amigos próximos comprarem a ideia da crise, a ideia do benefício do golpe como força necessária a destituição dos poderes democráticos. Já não sabia “por que” ou “contra o que” as pessoas brindavam seu apoio. Tudo o que eu sabia é que o estado de exceção colocava em risco a estabilidade dos direitos humanos [e ambientais], alegadamente prejudiciais por diversas frentes da direita política. A vitória de Donald Trump nos Estados Unidos da América impulsionava o surgimento de uma direita reacionária na América Latina. No ato de votação do impedimento de governo da até então presidenta Dilma Roussef tivemos uma prova do porvir. Deus, família “tradicional” brasileira (a branca heterossexual euro-normativa), e Carlos Brilhante Ustra ganharam foco.” (Fragmento extraído do artigo Arremates em torno da suspensão como força transindividual na Performance Pequena Morte, 2017.)

A produção da performance Carcaça, em residência, só foi público meses depois junto ao XV Salão Latino-Americano de Artes Plásticas do Museu de Artes de Santa Maria (RS). Ela foi premiada com o Grande Prêmio Destaque do salão e compõe, desde então, o acervo do museu.

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Couraça (2017) emerged, like Brete, in the context of an Artistic Residency in the city of Silveira Martins (RS). During this immersion, we were able to talk to residents of the city, although the words exchanged could only take us to the thresholds of human communication. There was a group of non-human bodies living in that region. Silveira Martins is a small city whose local sources of income are based on subsistence agriculture and livestock farming. We encountered non-humans everywhere, including in work operations. Animals form the basis of agricultural operations: they plow the land, transport substances and production, and transport humans. However, our encounter with animals on that occasion first took place during a visit to a slaughterhouse. The butcher had slaughtered four cows and what was left was the salted leather that would be sent to a tannery. I asked the man if I could buy the leather from one of the cows and decided to sew it around my body to create a garment made from the animal’s skin. At that time, the national political panorama was a blow to democracy that prevented then-president Dilma Rousseff from continuing her term. “Amidst the fervent political crisis, the rise of the right to power, fueled by a servile political alignment with the United States of America, a blow to democracy was taking place. Such a movement had been insinuating itself for some time and we felt it. The difficulty was accepting that what was unfolding was gaining daily proportions fueled by networks of circulation of fake news and by the creation of a false crisis (economic, ideological, and public security) fueled by a “conspiratorial fantasy” (FOSTER, 2021, p. 31, our translation) created by the discourse of the white right. What was needed to be done as an artist, as a thinker/researcher of art to act against the dark forces that were insinuating themselves? “And, in any case, why add indignation to a media economy that feeds on its own?” (FOSTER, 2021, p. 8, our translation). What seemed so obvious to some of us was not so obvious to others. We saw close friends buy into the idea of ​​the crisis, the idea of ​​the coup’s benefits as a necessary force to overthrow democratic powers. I no longer knew “why” or “against what” people were offering their support. All I knew was that the state of exception put at risk the stability of human [and environmental] rights, which were allegedly harmful by several fronts of the political right. Donald Trump’s victory in the United States of America fueled the emergence of a reactionary right in Latin America. In the act of voting to impeach the then president Dilma Roussef, we had a taste of what was to come. God, the “traditional” Brazilian family (the white, heterosexual, Euronormative one), and Carlos Brilhante Ustra came into focus. (Excerpt from the article Arremates em torno da suspenso como força transindividual na Performance Pequena Morte, 2017.)

The production of the performance Carcaça, during the residency, was only made public months later at the XV Latin American Salon of Visual Arts at the Museu de Artes de Santa Maria (RS). It was awarded the Grand Prize of the Salon and has been part of the museum’s collection ever since.